As portas se abriram, o que ela viu foi apenas
o vislumbre do jardim sereno, balançando ao sabor da brisa quente daquela
tarde.
Ela colocou os pés para fora sentindo o sol
queimar-lhe os dedos descalços, a brisa sacudiu seus cabelos soltos, como braços
revoltos de polvos no mar profundo. Ela não sabia o que encontraria lá fora,
somente sabia que já não poderia mais voltar. Sabia que seu mundo já não estava
mais dentro daquelas paredes seguras e frias, seu coração palpitava, sua mente
inquieta buscava entrever por entre os fragmentos de luz e sombra o que esta porta
poderia lhe mostrar.
O que viu foi tão somente um reflexo de si
mesma na água parada do lago coberto de folhas secas, galhos soltos e mato
alto. O jardim havia sido relegado por muito tempo a um segundo plano, era
incrível que a vida ainda se mantivesse latente em cada recanto esquecido e
ignorado no tempo.
Ela sabia que aquele seria somente o primeiro passo,
mas para onde a levaria ainda não poderia saber.
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| Fonte: Google |
Nas paredes nuas e quebradiças do muro ela viu
as sombras dele que se foi e seu coração doeu, mas lá havia também o vazio de um
alguém que um dia poderia chegar, se este seria o amor para a vida inteira, ela
não poderia dizer. Ou quem sabe outros amores ainda poderiam chegar da mesma maneira
para depois partir, mas seu coração lhe dizia que apesar do medo, apesar da
tristeza pela nova batalha, ela se alegrava, por poder sentir tudo outra vez, a
ansiedade da espera, a dor do não saber. Mas ai lembrou-se que sempre fora
assim, que nunca houve certezas em sua vida, apenas o silêncio da resignação.
O que devo agora buscar? Serei a valente
amazona pronta para lutar, ou serei a princesa encastelada esperando um
príncipe chegar, ou ainda serei aquela camponesa que carrega o fardo junto ao
seu amor? Quem serei eu nesta nova estrada?
Ela via que seus cabelos escuros agora já não
eram tão escuros assim, mas seu coração palpitava de uma juventude que ela
nunca sentira, porque sempre fora envelhecida, como as árvores da colina curvadas
sob a força das tempestades. Seus galhos agora seriam capazes de tocar o céu, ou
ela passaria a vida contemplando um sonho que se desfez antes mesmo de começar?
Ela seria capaz de compreender a si mesma, e
aceitar que poderia voar desde que encontrasse forças para desenrolar suas asas
sob aquele sol quente que fazia o sangue frio de suas veias pulsarem mais uma
vez?
Ela se olhou no lago, e sabia que ainda estava
ali, presa dentro daquelas águas escuras esperando por renascer, e que o
silencio em sua alma era a espera para ouvir sua própria voz que teimava em não
sair...
E ela viu então que as lágrimas corriam de seus
olhos vazios, que lágrimas de pedra quente rolavam por sua face, caiam a seus
pés deixando uma trilha de fogo que queimava o solo ressequido de sua alma.
O fogo não era uma tragédia, o fogo seria sua
salvação, pois finalmente permitiria descongelar aquele solo meio morto, que
suspirava esperando uma oportunidade de rebrotar, e o fogo o aliviou das chagas
antigas na tormenta que se deu.
As labaredas consumiam tudo a sua volta,
rolando por suas vestes como se as limpasse de todo o peso carregado por tanto
tempo. Ela sabia que só poderia se libertar de si mesma quando compreendesse
que tudo foi uma preparação para um novo dia, para uma nova historia que ela viera
construindo até ali, uma porta para permitir enfim que o mundo adentrasse seu
coração, ela permitiu ao fogo avassalador que ruísse suas ultimas paredes, que
tragasse suas ultimas reservas de resistência para que ela finalmente pudesse
olhar o mundo!
Mia 07/2014

